Em neonatologia e pediatria, cada acesso venoso preservado tem valor clínico. O cateter central de inserção periférica, conhecido como PICC, pode oferecer acesso estável para terapias selecionadas, mas seus benefícios não são automáticos. A segurança depende de uma cadeia de decisões que começa antes da punção e termina somente após a retirada e o registro completo do dispositivo.
O que é um PICC?
É um cateter introduzido por uma veia periférica e avançado até uma posição central. Sua escolha deve considerar finalidade terapêutica, características da solução, duração prevista, anatomia, condição clínica e preservação vascular, sempre conforme protocolo institucional e avaliação da equipe habilitada.12
Confirmar se o PICC é realmente o dispositivo mais adequado
A dificuldade de obter um acesso periférico pode participar da avaliação, mas não deve ser a única justificativa. A decisão precisa partir do plano terapêutico. Soluções irritantes, vesicantes ou com características que exijam administração central, nutrição parenteral, infusões repetidas e necessidade prevista de acesso por período prolongado são exemplos de situações que podem levar a equipe a considerar um PICC.
Em crianças e neonatos, a escolha do dispositivo deve equilibrar continuidade da terapia, menor dano possível, preservação dos vasos e características individuais do paciente. Instrumentos de adequação, como o miniMAGIC, reforçam que não existe um único critério capaz de decidir isoladamente.5
Evite decisões automáticas
Não indique o PICC apenas porque “o acesso está difícil” ou porque existe uma previsão genérica de muitos dias de internação. O dispositivo deve ser coerente com a terapia planejada, as condições clínicas e a estratégia de preservação vascular.
Escolher o vaso, o calibre e o número de lúmens com critério
O planejamento do acesso não termina ao identificar uma veia puncionável. O vaso precisa comportar o cateter sem comprometer de forma desnecessária o fluxo sanguíneo. A Anvisa recomenda, para PICC, relação cateter-vaso inferior a 45% e orienta a seleção do menor calibre e do menor número de lúmens capazes de atender à terapia.1
Em membros superiores, veias basílica, braquial e cefálica podem ser avaliadas, com preferência frequente pela basílica quando as condições anatômicas e clínicas são favoráveis. Em neonatos e crianças, outros sítios, como veias do couro cabeludo ou de membros inferiores, podem ser considerados em situações específicas. Essa decisão exige análise individual e atenção a condições que alterem risco ou preservação vascular.
- Use o menor cateter que cumpra a finalidade terapêutica. Um dispositivo maior que o necessário ocupa mais espaço no vaso e pode aumentar risco de complicações.
- Reduza o número de lúmens ao mínimo indispensável. Cada lúmen adicional amplia pontos de manipulação e deve ter finalidade clara.
- Mapeie o vaso antes da punção. Diâmetro, profundidade, trajeto, compressibilidade e estruturas próximas precisam ser avaliados quando houver tecnologia e profissional habilitado.
- Pense na trajetória completa do cuidado. O acesso escolhido hoje não deve inviabilizar necessidades vasculares previsíveis amanhã.
Situações que pedem avaliação ampliada
Doença renal crônica, alterações cardíacas específicas, patologias abdominais e histórico de comprometimento vascular podem modificar a escolha do membro ou até a adequação do PICC. Nesses casos, a decisão deve ser compartilhada com a equipe responsável e seguir protocolo institucional.
Tratar a inserção como um procedimento padronizado, não como uma habilidade isolada
A competência do profissional é indispensável, mas segurança consistente exige sistema. A inserção deve ocorrer com profissional habilitado, higiene das mãos, técnica asséptica, barreira máxima de proteção, preparo adequado do campo, checklist e disponibilidade dos materiais previstos no protocolo. Diretrizes atuais também recomendam ultrassonografia quando a tecnologia está disponível e o operador possui treinamento apropriado.123
Checklist antes de começar
Indicação, consentimento conforme rotina, materiais, antissepsia apropriada à faixa etária, barreira máxima, monitorização e plano de confirmação da ponta devem estar definidos antes da punção.
Ultrassom com competência
A tecnologia pode melhorar a visualização e apoiar a escolha do vaso, mas não substitui treinamento, leitura anatômica, técnica asséptica e supervisão compatível com a experiência do profissional.
No Brasil, a enfermagem possui regulamentação específica para inserção de PICC. O enfermeiro deve estar qualificado, atuar dentro de protocolo institucional e manter competência para o procedimento e para o manejo do dispositivo.4
Confirmar e documentar a posição da ponta
A extensão introduzida ou a percepção de uma punção bem-sucedida não confirmam, por si, a posição final. O PICC com finalidade central deve ser liberado para uso somente após confirmação da ponta por método validado pela instituição, interpretação adequada e registro do resultado.
A radiografia é um método frequente, e outras tecnologias podem ser utilizadas conforme população, disponibilidade, competência da equipe e protocolo local. A imagem precisa ser analisada no contexto anatômico e clínico, com atenção a malposição, migração e localização intracardíaca indevida.
Uma punção tecnicamente bem executada ainda precisa de uma ponta corretamente posicionada, documentada e acompanhada.
Alteração do comprimento externo é um sinal clínico
Se o segmento externo parecer maior ou menor que o registro inicial, interrompa o uso conforme protocolo e solicite avaliação. Não reintroduza no vaso um segmento que se exteriorizou.
Executar a manutenção como um bundle diário de segurança
A manutenção não é uma soma de tarefas independentes. Higiene das mãos, desinfecção das conexões, técnica asséptica sem toque, cobertura estéril íntegra, avaliação do sítio, permeabilidade, documentação e revisão da necessidade do cateter formam um único conjunto de prevenção.12
Em cada manipulação
- Higienizar as mãos antes e após o contato.
- Desinfetar ativamente conectores e permitir a secagem.
- Aplicar técnica asséptica sem toque.
- Utilizar materiais e soluções previstos no protocolo.
- Nunca forçar a infusão diante de resistência.
Na avaliação diária
- Rever a indicação e a necessidade de cada lúmen.
- Inspecionar e palpar o sítio conforme protocolo.
- Conferir cobertura, fixação e comprimento externo.
- Pesquisar sinais locais e sistêmicos de complicação.
- Registrar achados e condutas de forma rastreável.
Desinfecção de conectores
A Anvisa orienta fricção ativa das conexões por pelo menos cinco segundos, ou pelo tempo definido pelo fabricante e pelo protocolo institucional, antes de acessar o sistema. A técnica precisa ser feita em todas as manipulações relevantes, não apenas na primeira utilização do turno.1
Cobertura e pele neonatal
A cobertura deve permanecer estéril, limpa, seca, aderida e permitir avaliação segura do sítio. Deve ser trocada imediatamente quando estiver úmida, solta, visivelmente suja ou quando a pele estiver comprometida. Em neonatos, não se deve aplicar mecanicamente um calendário genérico de troca. A fragilidade da pele, o risco de remoção do cateter e o protocolo neonatal precisam orientar a decisão.
Flushing e permeabilidade
Volume, frequência, solução, técnica e tipo de seringa devem seguir as especificações do dispositivo, a condição do paciente e o protocolo institucional. Em recém-nascidos e crianças pequenas, não existe um volume universal aplicável a todos os casos. Resistência, ausência de fluxo, extravasamento ou alarme recorrente exigem avaliação antes de qualquer tentativa adicional.
Não transforme resistência em “rotina”
Forçar o flushing pode agravar ruptura, deslocamento, extravasamento ou outras complicações. Interrompa a manipulação, verifique causas mecânicas seguras e acione o fluxo institucional de avaliação.
Reconhecer sinais precoces antes que a complicação avance
Complicações infecciosas, trombóticas, mecânicas e relacionadas à posição podem se apresentar de maneiras diferentes. Em neonatos, sinais sistêmicos podem ser discretos e inespecíficos. A mudança em relação ao padrão basal do paciente deve ser valorizada, principalmente quando ocorre junto a alteração do sítio, funcionamento do cateter ou comprimento externo.
| Possibilidade | Sinais que podem levantar suspeita | Conduta inicial segura |
|---|---|---|
| Infecção local ou da corrente sanguínea | Eritema, dor, calor, secreção, alteração da pele, instabilidade térmica ou deterioração clínica sem explicação clara. | Interromper manipulações não essenciais, comunicar a equipe e seguir o protocolo de investigação e manejo. |
| Oclusão | Resistência, fluxo reduzido, alarme recorrente, dificuldade de infusão ou de aspiração, considerando a finalidade do lúmen. | Não forçar. Verificar causas mecânicas previstas no protocolo e solicitar avaliação da equipe habilitada. |
| Trombose ou flebite | Edema, dor, eritema, assimetria, endurecimento do trajeto venoso ou circulação colateral. | Suspender o uso conforme avaliação clínica e acionar investigação específica. |
| Migração ou malposição | Mudança do comprimento externo, disfunção súbita, arritmia, desconforto, alteração respiratória ou hemodinâmica. | Interromper a infusão e confirmar a posição antes de retomar o uso. |
| Infiltração, extravasamento ou vazamento | Edema, alteração de cor ou temperatura, umidade no sistema, dor, aumento de volume ou vazamento visível. | Parar a infusão, preservar o acesso conforme o protocolo da substância e iniciar avaliação imediata. |
| Dano mecânico | Fissura, ruptura, conexão insegura, vazamento ou alteração da fixação. | Conter o risco conforme protocolo, evitar novas manipulações e acionar profissional habilitado. |
Eventos raros, mas graves, como derrames, tamponamento ou alterações do ritmo relacionadas à posição da ponta, precisam ser lembrados quando há deterioração respiratória ou hemodinâmica abrupta. A resposta deve priorizar estabilização clínica e investigação imediata, sem tentativas repetidas de uso do cateter.
Quatro atitudes diante de suspeita de complicação
- Interromper a infusão quando indicado e manter foco na estabilidade do paciente.
- Não forçar flushing e não reintroduzir segmento exteriorizado.
- Acionar o protocolo institucional e a equipe responsável pelo acesso.
- Documentar sinais, horário, terapias em curso e condutas realizadas.
Retirar quando a indicação terminar, sem esperar o cateter “dar problema”
A permanência deve ser reavaliada diariamente. Quando a terapia central terminou, existe alternativa apropriada ou o dispositivo deixou de ser necessário, mantê-lo apenas por conveniência prolonga uma exposição que já não oferece benefício clínico.
Diretrizes atuais não recomendam substituição rotineira do PICC baseada apenas no tempo de permanência. A decisão de manter, remover ou substituir deve considerar necessidade, funcionamento, sinais clínicos, complicações e o plano terapêutico.1
Na retirada, a equipe deve seguir técnica e protocolo próprios, avaliar a integridade do cateter removido, observar o sítio, registrar o procedimento e orientar o acompanhamento necessário. Se houver suspeita de complicação, a retirada deve fazer parte de um plano clínico, e não ser uma resposta desarticulada.
O que a equipe não deve normalizar
Pequenas alterações repetidas podem ser a primeira manifestação de uma complicação relevante.
Checklist diário de avaliação do PICC
Use como apoio educacional. A versão assistencial deve ser validada e incorporada ao protocolo da instituição.
- A indicação do PICC permanece atual e documentada?
- Cada lúmen possui finalidade clínica definida?
- O sítio está sem eritema, edema, dor, secreção ou alteração da pele?
- A cobertura está estéril, limpa, seca, aderida e íntegra?
- O comprimento externo confere com o registro de referência?
- Há resistência, redução de fluxo, alarme ou vazamento?
- As conexões foram desinfetadas antes das manipulações?
- Existem sinais sistêmicos ou deterioração sem causa esclarecida?
- Equipos, conectores e dispositivos estão dentro da rotina institucional?
- Achados, intercorrências e condutas foram registrados?
Inserção e Manutenção do PICC em pacientes neonatais e pediátricos
Uma formação do IMIP Educa para aprofundar indicação, características dos cateteres, técnica, interpretação de imagens radiológicas, prevenção de complicações e manutenção do dispositivo.
Com Claudiane Ventura: enfermeira neonatologista, mestre em Saúde da Mulher e da Criança pelo IMIP, habilitada em PICC desde 2008 e gerente de enfermagem da Unidade Neonatal do IMIP, conforme apresentação oficial do curso.
Perguntas frequentes sobre PICC em neonatos e crianças
As respostas abaixo são gerais e devem ser aplicadas em conjunto com avaliação clínica, especificações do dispositivo e protocolo institucional.
O PICC é a mesma coisa que um acesso venoso periférico comum?
Não. Embora a inserção comece por uma veia periférica, o PICC é avançado até uma posição central quando essa é a finalidade do dispositivo. Isso altera suas indicações, o método de confirmação da ponta, os cuidados de manutenção e os riscos que precisam ser monitorados.
Todo paciente com acesso venoso difícil deve receber um PICC?
Não. A dificuldade de acesso pode ser um elemento da avaliação, mas a escolha deve considerar terapia, duração prevista, características das soluções, anatomia, condição clínica, alternativas disponíveis e preservação vascular.
Quem pode inserir PICC no Brasil?
Entre os profissionais autorizados, enfermeiros podem realizar o procedimento quando possuem qualificação específica, competência comprovada e atuação respaldada por protocolo institucional e normas profissionais. A organização local também deve definir responsabilidades, supervisão e critérios de habilitação.
O PICC pode ser utilizado imediatamente após a punção?
O PICC destinado a acesso central deve ser liberado somente após confirmação e documentação da posição da ponta pelo método adotado pela instituição, além da avaliação das condições do dispositivo e do paciente.
Qual é a frequência correta para trocar a cobertura?
A cobertura deve ser trocada imediatamente se estiver úmida, solta, visivelmente suja ou se a pele estiver comprometida. A frequência programada depende do tipo de cobertura, faixa etária, condição da pele, risco de deslocamento e protocolo. Em neonatos, não se deve aplicar automaticamente um calendário genérico usado em adultos.
Resistência durante o flushing significa que o cateter está ocluído?
Não necessariamente. Dobras, clamps, posição do membro, conexões, precipitados, migração, trombose e outras causas podem interferir no fluxo. A conduta segura é não forçar e seguir uma avaliação sistemática definida pelo protocolo.
O PICC precisa ser trocado depois de um número fixo de dias?
Não há recomendação de substituição rotineira apenas pelo tempo de permanência. A necessidade deve ser reavaliada todos os dias, e a remoção ou substituição depende da indicação, do funcionamento, de complicações e do plano terapêutico.
Referências técnicas
Fontes prioritariamente oficiais e diretrizes de prática utilizadas na elaboração editorial.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Protocolo para prevenção de infecção primária da corrente sanguínea associada a cateter intravascular. Brasília: Anvisa; 2026.
- World Health Organization. Guidelines for the prevention of bloodstream infections and other infections associated with the use of intravascular catheters. Geneva: WHO; 2026.
- Centers for Disease Control and Prevention. Summary of recommendations: intravascular catheter-related infection prevention.
- Conselho Federal de Enfermagem. Parecer de Conselheira Federal Relatora nº 017/2023, com referência à Resolução Cofen nº 258/2001.
- Ullman AJ, Bernstein SJ, Brown E, et al. The Michigan Appropriateness Guide for Intravenous Catheters in Pediatrics: miniMAGIC. Pediatrics. 2020;145(Suppl 3):S269-S284.
- Infusion Nurses Society. Infusion Therapy Standards of Practice, 9th Edition. Journal of Infusion Nursing. 2024.

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