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Protocolos e boas práticas Guia clínico

PICC em neonatos e crianças: 7 decisões críticas para reduzir complicações e preservar o acesso

O resultado não depende apenas da punção. Indicação, escolha do vaso, confirmação da ponta, manutenção e retirada precisam funcionar como um único processo de segurança.

  • Leitura aproximada: 12 minutos
  • Conteúdo educacional
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Indicação individualizada

O dispositivo deve responder à terapia, à anatomia e à necessidade de preservar a rede venosa.

Ponta confirmada

A liberação para uso exige confirmação documentada da posição por método validado pela instituição.

Manutenção como bundle

Higiene das mãos, desinfecção, cobertura íntegra, avaliação diária e técnica asséptica são inseparáveis.

Retirada no momento certo

O PICC deve permanecer apenas enquanto houver indicação clínica, sem troca rotineira baseada somente no tempo.

Em neonatologia e pediatria, cada acesso venoso preservado tem valor clínico. O cateter central de inserção periférica, conhecido como PICC, pode oferecer acesso estável para terapias selecionadas, mas seus benefícios não são automáticos. A segurança depende de uma cadeia de decisões que começa antes da punção e termina somente após a retirada e o registro completo do dispositivo.

O que é um PICC?

É um cateter introduzido por uma veia periférica e avançado até uma posição central. Sua escolha deve considerar finalidade terapêutica, características da solução, duração prevista, anatomia, condição clínica e preservação vascular, sempre conforme protocolo institucional e avaliação da equipe habilitada.12

01
Antes da punção

Confirmar se o PICC é realmente o dispositivo mais adequado

A dificuldade de obter um acesso periférico pode participar da avaliação, mas não deve ser a única justificativa. A decisão precisa partir do plano terapêutico. Soluções irritantes, vesicantes ou com características que exijam administração central, nutrição parenteral, infusões repetidas e necessidade prevista de acesso por período prolongado são exemplos de situações que podem levar a equipe a considerar um PICC.

Em crianças e neonatos, a escolha do dispositivo deve equilibrar continuidade da terapia, menor dano possível, preservação dos vasos e características individuais do paciente. Instrumentos de adequação, como o miniMAGIC, reforçam que não existe um único critério capaz de decidir isoladamente.5

O que será infundido? A composição, a osmolaridade, o pH e o potencial irritante ou vesicante influenciam a escolha.
Por quanto tempo o acesso será necessário? A duração prevista importa, mas não deve ser utilizada como regra isolada.
Qual é a condição da rede venosa? Calibre, integridade, acessos prévios e necessidade de preservação precisam entrar no planejamento.
Existe alternativa menos invasiva e adequada? A melhor escolha é a que atende à terapia com o menor risco compatível com o caso.

Evite decisões automáticas

Não indique o PICC apenas porque “o acesso está difícil” ou porque existe uma previsão genérica de muitos dias de internação. O dispositivo deve ser coerente com a terapia planejada, as condições clínicas e a estratégia de preservação vascular.

02
Planejamento vascular

Escolher o vaso, o calibre e o número de lúmens com critério

O planejamento do acesso não termina ao identificar uma veia puncionável. O vaso precisa comportar o cateter sem comprometer de forma desnecessária o fluxo sanguíneo. A Anvisa recomenda, para PICC, relação cateter-vaso inferior a 45% e orienta a seleção do menor calibre e do menor número de lúmens capazes de atender à terapia.1

Em membros superiores, veias basílica, braquial e cefálica podem ser avaliadas, com preferência frequente pela basílica quando as condições anatômicas e clínicas são favoráveis. Em neonatos e crianças, outros sítios, como veias do couro cabeludo ou de membros inferiores, podem ser considerados em situações específicas. Essa decisão exige análise individual e atenção a condições que alterem risco ou preservação vascular.

  • Use o menor cateter que cumpra a finalidade terapêutica. Um dispositivo maior que o necessário ocupa mais espaço no vaso e pode aumentar risco de complicações.
  • Reduza o número de lúmens ao mínimo indispensável. Cada lúmen adicional amplia pontos de manipulação e deve ter finalidade clara.
  • Mapeie o vaso antes da punção. Diâmetro, profundidade, trajeto, compressibilidade e estruturas próximas precisam ser avaliados quando houver tecnologia e profissional habilitado.
  • Pense na trajetória completa do cuidado. O acesso escolhido hoje não deve inviabilizar necessidades vasculares previsíveis amanhã.

Situações que pedem avaliação ampliada

Doença renal crônica, alterações cardíacas específicas, patologias abdominais e histórico de comprometimento vascular podem modificar a escolha do membro ou até a adequação do PICC. Nesses casos, a decisão deve ser compartilhada com a equipe responsável e seguir protocolo institucional.

Profissionais do IMIP Educa durante atividade de capacitação em saúde
O domínio técnico precisa ser acompanhado de treinamento, padronização e capacidade de reconhecer alterações clínicas durante toda a permanência do cateter.
03
Inserção segura

Tratar a inserção como um procedimento padronizado, não como uma habilidade isolada

A competência do profissional é indispensável, mas segurança consistente exige sistema. A inserção deve ocorrer com profissional habilitado, higiene das mãos, técnica asséptica, barreira máxima de proteção, preparo adequado do campo, checklist e disponibilidade dos materiais previstos no protocolo. Diretrizes atuais também recomendam ultrassonografia quando a tecnologia está disponível e o operador possui treinamento apropriado.123

Checklist antes de começar

Indicação, consentimento conforme rotina, materiais, antissepsia apropriada à faixa etária, barreira máxima, monitorização e plano de confirmação da ponta devem estar definidos antes da punção.

Ultrassom com competência

A tecnologia pode melhorar a visualização e apoiar a escolha do vaso, mas não substitui treinamento, leitura anatômica, técnica asséptica e supervisão compatível com a experiência do profissional.

No Brasil, a enfermagem possui regulamentação específica para inserção de PICC. O enfermeiro deve estar qualificado, atuar dentro de protocolo institucional e manter competência para o procedimento e para o manejo do dispositivo.4

04
Antes de liberar o acesso

Confirmar e documentar a posição da ponta

A extensão introduzida ou a percepção de uma punção bem-sucedida não confirmam, por si, a posição final. O PICC com finalidade central deve ser liberado para uso somente após confirmação da ponta por método validado pela instituição, interpretação adequada e registro do resultado.

A radiografia é um método frequente, e outras tecnologias podem ser utilizadas conforme população, disponibilidade, competência da equipe e protocolo local. A imagem precisa ser analisada no contexto anatômico e clínico, com atenção a malposição, migração e localização intracardíaca indevida.

Uma punção tecnicamente bem executada ainda precisa de uma ponta corretamente posicionada, documentada e acompanhada.

Alteração do comprimento externo é um sinal clínico

Se o segmento externo parecer maior ou menor que o registro inicial, interrompa o uso conforme protocolo e solicite avaliação. Não reintroduza no vaso um segmento que se exteriorizou.

05
Durante toda a permanência

Executar a manutenção como um bundle diário de segurança

A manutenção não é uma soma de tarefas independentes. Higiene das mãos, desinfecção das conexões, técnica asséptica sem toque, cobertura estéril íntegra, avaliação do sítio, permeabilidade, documentação e revisão da necessidade do cateter formam um único conjunto de prevenção.12

Em cada manipulação

  • Higienizar as mãos antes e após o contato.
  • Desinfetar ativamente conectores e permitir a secagem.
  • Aplicar técnica asséptica sem toque.
  • Utilizar materiais e soluções previstos no protocolo.
  • Nunca forçar a infusão diante de resistência.

Na avaliação diária

  • Rever a indicação e a necessidade de cada lúmen.
  • Inspecionar e palpar o sítio conforme protocolo.
  • Conferir cobertura, fixação e comprimento externo.
  • Pesquisar sinais locais e sistêmicos de complicação.
  • Registrar achados e condutas de forma rastreável.

Desinfecção de conectores

A Anvisa orienta fricção ativa das conexões por pelo menos cinco segundos, ou pelo tempo definido pelo fabricante e pelo protocolo institucional, antes de acessar o sistema. A técnica precisa ser feita em todas as manipulações relevantes, não apenas na primeira utilização do turno.1

Cobertura e pele neonatal

A cobertura deve permanecer estéril, limpa, seca, aderida e permitir avaliação segura do sítio. Deve ser trocada imediatamente quando estiver úmida, solta, visivelmente suja ou quando a pele estiver comprometida. Em neonatos, não se deve aplicar mecanicamente um calendário genérico de troca. A fragilidade da pele, o risco de remoção do cateter e o protocolo neonatal precisam orientar a decisão.

Flushing e permeabilidade

Volume, frequência, solução, técnica e tipo de seringa devem seguir as especificações do dispositivo, a condição do paciente e o protocolo institucional. Em recém-nascidos e crianças pequenas, não existe um volume universal aplicável a todos os casos. Resistência, ausência de fluxo, extravasamento ou alarme recorrente exigem avaliação antes de qualquer tentativa adicional.

Não transforme resistência em “rotina”

Forçar o flushing pode agravar ruptura, deslocamento, extravasamento ou outras complicações. Interrompa a manipulação, verifique causas mecânicas seguras e acione o fluxo institucional de avaliação.

06
Vigilância clínica

Reconhecer sinais precoces antes que a complicação avance

Complicações infecciosas, trombóticas, mecânicas e relacionadas à posição podem se apresentar de maneiras diferentes. Em neonatos, sinais sistêmicos podem ser discretos e inespecíficos. A mudança em relação ao padrão basal do paciente deve ser valorizada, principalmente quando ocorre junto a alteração do sítio, funcionamento do cateter ou comprimento externo.

Complicações que precisam entrar no raciocínio clínico
Possibilidade Sinais que podem levantar suspeita Conduta inicial segura
Infecção local ou da corrente sanguínea Eritema, dor, calor, secreção, alteração da pele, instabilidade térmica ou deterioração clínica sem explicação clara. Interromper manipulações não essenciais, comunicar a equipe e seguir o protocolo de investigação e manejo.
Oclusão Resistência, fluxo reduzido, alarme recorrente, dificuldade de infusão ou de aspiração, considerando a finalidade do lúmen. Não forçar. Verificar causas mecânicas previstas no protocolo e solicitar avaliação da equipe habilitada.
Trombose ou flebite Edema, dor, eritema, assimetria, endurecimento do trajeto venoso ou circulação colateral. Suspender o uso conforme avaliação clínica e acionar investigação específica.
Migração ou malposição Mudança do comprimento externo, disfunção súbita, arritmia, desconforto, alteração respiratória ou hemodinâmica. Interromper a infusão e confirmar a posição antes de retomar o uso.
Infiltração, extravasamento ou vazamento Edema, alteração de cor ou temperatura, umidade no sistema, dor, aumento de volume ou vazamento visível. Parar a infusão, preservar o acesso conforme o protocolo da substância e iniciar avaliação imediata.
Dano mecânico Fissura, ruptura, conexão insegura, vazamento ou alteração da fixação. Conter o risco conforme protocolo, evitar novas manipulações e acionar profissional habilitado.

Eventos raros, mas graves, como derrames, tamponamento ou alterações do ritmo relacionadas à posição da ponta, precisam ser lembrados quando há deterioração respiratória ou hemodinâmica abrupta. A resposta deve priorizar estabilização clínica e investigação imediata, sem tentativas repetidas de uso do cateter.

Quatro atitudes diante de suspeita de complicação

  • Interromper a infusão quando indicado e manter foco na estabilidade do paciente.
  • Não forçar flushing e não reintroduzir segmento exteriorizado.
  • Acionar o protocolo institucional e a equipe responsável pelo acesso.
  • Documentar sinais, horário, terapias em curso e condutas realizadas.
07
Encerramento seguro

Retirar quando a indicação terminar, sem esperar o cateter “dar problema”

A permanência deve ser reavaliada diariamente. Quando a terapia central terminou, existe alternativa apropriada ou o dispositivo deixou de ser necessário, mantê-lo apenas por conveniência prolonga uma exposição que já não oferece benefício clínico.

Diretrizes atuais não recomendam substituição rotineira do PICC baseada apenas no tempo de permanência. A decisão de manter, remover ou substituir deve considerar necessidade, funcionamento, sinais clínicos, complicações e o plano terapêutico.1

Na retirada, a equipe deve seguir técnica e protocolo próprios, avaliar a integridade do cateter removido, observar o sítio, registrar o procedimento e orientar o acompanhamento necessário. Se houver suspeita de complicação, a retirada deve fazer parte de um plano clínico, e não ser uma resposta desarticulada.

O que a equipe não deve normalizar

Pequenas alterações repetidas podem ser a primeira manifestação de uma complicação relevante.

Cobertura úmida, solta, suja ou incapaz de proteger o sítio.
Comprimento externo diferente do registro inicial.
Resistência repetida ou necessidade de “fazer força” para infundir.
Edema, eritema, dor, secreção ou assimetria do membro.
Alarmes recorrentes tratados apenas com reinicialização da bomba.
Lúmen mantido sem finalidade clínica definida.
Deterioração clínica sem investigação da relação com o acesso.
Cateter mantido “por mais um dia” sem indicação documentada.

Checklist diário de avaliação do PICC

Use como apoio educacional. A versão assistencial deve ser validada e incorporada ao protocolo da instituição.

  1. A indicação do PICC permanece atual e documentada?
  2. Cada lúmen possui finalidade clínica definida?
  3. O sítio está sem eritema, edema, dor, secreção ou alteração da pele?
  4. A cobertura está estéril, limpa, seca, aderida e íntegra?
  5. O comprimento externo confere com o registro de referência?
  6. Há resistência, redução de fluxo, alarme ou vazamento?
  7. As conexões foram desinfetadas antes das manipulações?
  8. Existem sinais sistêmicos ou deterioração sem causa esclarecida?
  9. Equipos, conectores e dispositivos estão dentro da rotina institucional?
  10. Achados, intercorrências e condutas foram registrados?
Claudiane Ventura, docente da formação sobre PICC do IMIP Educa
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Inserção e Manutenção do PICC em pacientes neonatais e pediátricos

Uma formação do IMIP Educa para aprofundar indicação, características dos cateteres, técnica, interpretação de imagens radiológicas, prevenção de complicações e manutenção do dispositivo.

Com Claudiane Ventura: enfermeira neonatologista, mestre em Saúde da Mulher e da Criança pelo IMIP, habilitada em PICC desde 2008 e gerente de enfermagem da Unidade Neonatal do IMIP, conforme apresentação oficial do curso.

Perguntas frequentes sobre PICC em neonatos e crianças

As respostas abaixo são gerais e devem ser aplicadas em conjunto com avaliação clínica, especificações do dispositivo e protocolo institucional.

O PICC é a mesma coisa que um acesso venoso periférico comum?

Não. Embora a inserção comece por uma veia periférica, o PICC é avançado até uma posição central quando essa é a finalidade do dispositivo. Isso altera suas indicações, o método de confirmação da ponta, os cuidados de manutenção e os riscos que precisam ser monitorados.

Todo paciente com acesso venoso difícil deve receber um PICC?

Não. A dificuldade de acesso pode ser um elemento da avaliação, mas a escolha deve considerar terapia, duração prevista, características das soluções, anatomia, condição clínica, alternativas disponíveis e preservação vascular.

Quem pode inserir PICC no Brasil?

Entre os profissionais autorizados, enfermeiros podem realizar o procedimento quando possuem qualificação específica, competência comprovada e atuação respaldada por protocolo institucional e normas profissionais. A organização local também deve definir responsabilidades, supervisão e critérios de habilitação.

O PICC pode ser utilizado imediatamente após a punção?

O PICC destinado a acesso central deve ser liberado somente após confirmação e documentação da posição da ponta pelo método adotado pela instituição, além da avaliação das condições do dispositivo e do paciente.

Qual é a frequência correta para trocar a cobertura?

A cobertura deve ser trocada imediatamente se estiver úmida, solta, visivelmente suja ou se a pele estiver comprometida. A frequência programada depende do tipo de cobertura, faixa etária, condição da pele, risco de deslocamento e protocolo. Em neonatos, não se deve aplicar automaticamente um calendário genérico usado em adultos.

Resistência durante o flushing significa que o cateter está ocluído?

Não necessariamente. Dobras, clamps, posição do membro, conexões, precipitados, migração, trombose e outras causas podem interferir no fluxo. A conduta segura é não forçar e seguir uma avaliação sistemática definida pelo protocolo.

O PICC precisa ser trocado depois de um número fixo de dias?

Não há recomendação de substituição rotineira apenas pelo tempo de permanência. A necessidade deve ser reavaliada todos os dias, e a remoção ou substituição depende da indicação, do funcionamento, de complicações e do plano terapêutico.

Referências técnicas

Fontes prioritariamente oficiais e diretrizes de prática utilizadas na elaboração editorial.

  1. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Protocolo para prevenção de infecção primária da corrente sanguínea associada a cateter intravascular. Brasília: Anvisa; 2026.
  2. World Health Organization. Guidelines for the prevention of bloodstream infections and other infections associated with the use of intravascular catheters. Geneva: WHO; 2026.
  3. Centers for Disease Control and Prevention. Summary of recommendations: intravascular catheter-related infection prevention.
  4. Conselho Federal de Enfermagem. Parecer de Conselheira Federal Relatora nº 017/2023, com referência à Resolução Cofen nº 258/2001.
  5. Ullman AJ, Bernstein SJ, Brown E, et al. The Michigan Appropriateness Guide for Intravenous Catheters in Pediatrics: miniMAGIC. Pediatrics. 2020;145(Suppl 3):S269-S284.
  6. Infusion Nurses Society. Infusion Therapy Standards of Practice, 9th Edition. Journal of Infusion Nursing. 2024.
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